Moda sem gênero
é uma conversa para além das tendências
Começo essa newsletter de um lugar um pouco mais íntimo do que o habitual.
Antes da moda, meu caminho no Direito aconteceu de mãos dadas com os estudos de gênero. Por lá, busquei entender como normas, instituições e estruturas sociais se organizam, definindo e limitando as nossas formas de existir no mundo.
Quando entrei na consultoria de estilo, permaneci com a sensação de que não mudava o meu objeto de estudo. Apenas acessava outra linguagem.
Já que, assim como as leis — que primeiro nascem no cotidiano e depois se tornam regras —, as roupas também são uma prática do dia a dia. Quiçá, mais acessível que a primeira. Mas, como ela, intrínseca à construção da nossa identidade.
Saí dos códigos escritos para atuar nos códigos vestidos.
E, principalmente, nos códigos que imaginamos.
É por isso que a conversa sobre moda sem gênero sempre significou, para mim, uma pauta de reconhecimento e visibilidade, indo muito além da tendência estética do nosso tempo.
Há anos eu sei que ela nos é urgente — e, de alguma forma, familiar.
Se voltamos na história, percebemos que a divisão entre roupas de homem e roupas de mulher nem sempre foi a mesma.
Por séculos, a moda operou como um marcador de influência e classe social e, nesse contexto, o corpo masculino não se dissociava do adereço, nem do prazer estético. Para a nobreza e para a casta política, havia outra relação com o vestir: mais visível, com homens usando perucas, saltos e cores vibrantes.
No entanto, com a Revolução Industrial e a divisão sexual do trabalho, esse cenário se reorganizou.
O espaço público, pautado no capital e racionalidade, foi designado ao masculino. Enquanto o espaço privado, e todo o trabalho de cuidado que sustentava a economia, ficou a cargo das mulheres.
Foi assim que, operando na lógica da funcionalidade e do menor esforço, o armário masculino concentrou as ferramentas associadas à produção. E as roupas femininas, ao contrário, foram deslocadas para o campo da ornamentação, englobando tudo aquilo que não era considerado útil para a racionalidade cartesiana.
A partir desse momento, aconteceu um movimento crucial no vestuário.
A moda seguiu operando como marcador de classe e influência.
Mas passou também a ditar quem tem autonomia sobre a própria vida. Principalmente, sobre o próprio corpo.
Quando olho para esse contexto, me interessa pensar que a moda sem gênero não é exatamente uma invenção contemporânea.
Prefiro entendê-la como uma fissura. A ruptura de uma lógica cultural que, por muito tempo, se sustentou como natural.
Quem encara a roupa como linguagem já entendeu que não é apenas sobre marca, modelagem ou tecido.
Estamos falando sobre quem pode ocupar espaços, de que forma e com qual aparência.
E é justamente nesse ponto que saímos do abstrato e trazemos a discussão para o dia a dia.
Na prática, a moda sem gênero se manifesta de diferentes maneiras:
– Misturamos referências que, por muito tempo, foram mantidas separadas;
– Revisitamos códigos herdados, expandindo seus significados;
– E, aos poucos, ampliamos também o próprio mercado e suas possibilidades;
Particularmente, me interessa quando os armários começam a se atravessar.
Como uma prática de linguagem mesmo.
Blazers estruturados combinados com peças fluidas.
Homens investindo em decotes ou acessórios cuja única função é adornar.
Silhuetas tradicionalmente associadas ao feminino tensionadas por elementos de austeridade.
Aos poucos, essas combinações vão dissolvendo a necessidade de linhas tão rígidas para definir a nossa expressão.









Mas essa transformação não acontece apenas no nível do estilo.
Há que se considerar a forma como o próprio mercado viabiliza (ou não) essas escolhas.
Por exemplo,
Um homem trans entra na loja e não encontra uma bermuda que acomode seu corpo. Ou uma travesti, que não consegue o sapato em seu número. Ambos leem implicitamente que aquela experiência não os reconhece,
“Se não tem pra você, talvez não seja pra você.”
Falar sobre moda sem gênero é, sim, sobre misturar códigos.
Mas, para que ela seja de fato transformadora, precisa abranger uma reorganização mais profunda:
Da criação à modelagem.
Da grade de tamanhos à experiência de consumo.
Até chegar no styling de cada pessoa.
E também na impacto que essas escolhas promovem na sociedade.
As limitações que experimentamos no vestir não são dadas.
Elas são construídas e, principalmente, reproduzidas.
Enxergo moda como um campo em disputa. E, como tal, sei que ela está em constante atualização.
O que lutamos para vestir hoje define o que será possível vestir amanhã.
Esta newsletter nasceu em parceria com o Liberty Mall.
Circular por esses espaços é fundamental para perceber onde as mudanças já estão acontecendo, onde ainda operam limites e o que é necessário questionar.
A moda sem gênero se constrói no armário e também nos ambientes que tornam nossas escolhas possíveis. Observar que lugares como o Liberty estão se reorganizando faz parte dessa discussão.


Lari, querida.
Me sinto muito honrada por te ter por perto, acompanhando meu trabalho e trocando com tanto interesse.
Aliás, estou com saudades demais! 🖤
Para mim, um de seus melhores textos, Olívia. Que bom contar com sua inteligência, sua sensibilidade, seu repertório e sua coragem para acessar reflexões e discussões tão relevantes!